CORPO

24/03/2015
Querer e não querer

Você conhece alguém acima do peso que não gostaria de emagrecer? Ou algum fumante que não sabe que fumar faz mal à saúde? Para emagrecer, é preciso deixar de comer em alguns momentos. É possível querer emagrecer e não querer ter que se abster de comer o que tem vontade? Claro que sim. Na verdade, é isso que acontece com a maioria das pessoas.
Nosso tema hoje é a ambivalência no processo de mudança. Toda vez que precisamos realizar uma mudança, abandonar um velho hábito ou tomar uma decisão, possivelmente conseguimos ver prós e contras de mudar e de não mudar. Isso é parte do processo. Se pararmos para pensar, se temos um hábito, certamente ele nos traz algo de bom. Você acha que as pessoas que fumam podem, ao mesmo tempo, adorar fumar um cigarrinho, e ter muito medo do que isso pode acarretar para a saúde? Certamente. Ambivalência é querer e não querer ao mesmo tempo. E todo processo de mudança inclui um período de dúvida racional, seguido por uma certeza de que quer mudar em uma determinada direção, mais um longuíssimo tempo em que se quer mudar, mas não consegue. Muitas pessoas tem a crença de que se queremos algo realmente, podemos conseguir realizar. Se não conseguimos, é porque na realidade não queremos tanto assim. Entretanto, como vimos acima, isso não é, definitivamente, verdadeiro. Mudar depende de “força de vontade”, mas não se resume a ela. Posso perfeitamente querer mudar genuinamente e não conseguir tomar decisões nesse sentido no dia a dia. Quem já não fez promessas de iniciar uma dieta na segunda feira e não cumpriu que atire a primeira pedra! Por isso, venho hoje alertar para o que eu chamo de “armadilha da força de vontade”. Se acreditamos que basta querer mesmo para mudar, acabamos por nos recriminar ao não conseguirmos. Isso gera frustração, questionamento da própria capacidade de implementar a mudança e desmotivação. Nesse sentido, é uma armadilha, pois quanto mais procuramos a tal “força de vontade”, mais longe ficamos da mudança esperada. Entretanto, se sabemos que mudar exige não apenas vontade, mas uma série de habilidades que precisam ser implementadas, pouco a pouco, diariamente. Se percebermos a ambivalência como parte do processo e não como sinal de fracasso do comprometimento, saímos dessa brincadeira de gato e rato. Implementar uma mudança de vida é um aprendizado e, como tal, inclui errar, descobrir o que funciona e o que não funciona, tentar de novo, desistir e retomar. Sempre aos poucos. Mudar envolve, principalmente, não querer mudar. E saber que isso é normal e que é claro que os velhos hábitos deixam saudades. Se os mantínhamos há tanto tempo, eles não deviam ser tão ruins assim. Dessa forma, ao invés de se recriminar por não fazer o que deve, que tal tentar fazer o que se propôs 1 vez por dia? Semana que vem passamos para 2 vezes. Aí você desiste, esquece. Então começamos tudo de novo. E assim por diante. Até virar um hábito.


Aline Sardinha - Psicóloga clínica e Coach (CRP/05:34.146).
Site: www.alinesardinha.com







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COMENTÁRIOS
Perfeito!
Por: Roberta Dias - Em: 15/06/2015 - 23:59:18
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