MENTE

08/07/2014
A culpa é dos advérbios

Emoções intensas costumam aparecer acompanhadas por pensamentos igualmente fortes, rígidos e, às vezes, extremos. Quando um paciente chega ao consultório muito ativado emocionalmente e me conta o que aconteceu, posso perceber que o discurso se transforma em um desfile de “nunca”, “sempre”, “totalmente”, “absolutamente”, “tudo”, “nada” e outros advérbios que conferem à fala aquele colorido compatível com a emoção que o paciente está sentindo.

Aaron Beck, o criador da Terapia Cognitiva, costumava dizer que a psicopatologia tem como uma de suas características o pensamento distorcido. Quando falamos em distorções do pensamento, ou distorções cognitivas, nos referimos a uma forma de olhar para uma situação que, na verdade, permite enxergar apenas um recorte desta realidade.

Imagine alguém que diz “Eu sempre faço tudo errado!”. Será que existe alguém que, nunca, mesmo, faz nada certo? Imagino que não. Claro que, no fundo, a pessoa sabe que é possível que, às vezes, muito de vez em quando, ela acabe fazendo algo de bom. Entretanto, o pensamento “Eu sempre faço tudo errado” desperta uma emoção bem diferente de “Eu algumas vezes faço as coisas certo e outras vezes não”. Podemos ainda nos perguntar sobre o que seria exatamente fazer as coisas “certas” ou “erradas”.... mas aí precisaríamos de uma sessão de terapia inteira.

Muitas vezes, a própria pessoa consegue identificar o pensamento extremado ou distorcido. Em outras, infelizmente, essa tarefa se torna mais árdua. As distorções podem ser muito sutis, frequentemente até com cara de verdade... Por isso, ao percebermos uma emoção muito intensa, vale à pena tentar identificar qual é o pensamento que está alimentando esta onda emocional. Isso é especialmente importante se, diante da emoção, estamos pensando em tomar decisões sobre como se comportar... A emoção sozinha não costuma ser boa conselheira, não é mesmo?

Um bom exercício é, quando sentir uma emoção muito intensa, pegar uma folha de papel ou o bloco de notas do celular e anotar o que está passando pela sua cabeça naquele momento. Em seguida, reescreva as mesmas frases retirando os advérbios e veja o impacto que isso tem na força da sua emoção.

Dra Aline Sardinha – Psicóloga Clínica e Coach (CRP/05:34.146)





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