SEXUALIDADE

19/08/2014
Faixa de Gaza

Qual a temperatura ideal do quarto do casal? Quantas vezes por mês é necessário visitar a sogra? Como é o jeito certo de dividir as tarefas domésticas? E as contas da casa? A educação dos filhos? O destino da viagem de lazer... Na convivência de um casal, muitos são os pontos a serem negociados e acertados para viver em paz.

Entretanto, qual a resposta certa para cada uma das perguntas acima? Mesmo que você tenha uma, é bem provável que cada leitor pensará em uma resposta diferente. Obviamente, não tem uma única resposta possível para tais questões... muito menos uma resposta correta. Ainda assim, é comum ver casais debatendo suas questões com base no raciocínio certo x errado. Preciso dizer que isso é o ponto de partida para chegar a lugar nenhum? Mais do que isso, o caminho para uma discussão que, por não ser efetiva, acaba por gerar emoções negativas - frustração, decepção e raiva - que, inexoravelmente, promovem comportamentos agressivos, ofensivos ou evitativos.

Em psicologia de casais, usamos o termo ajustamento conjugal para definir o nível em que os parceiros concordam acerca de questões nas diferentes esferas da vida. Sem dúvida, um casal com maior ajustamento tende a ter menos pontos a discutir do que aqueles que discordam sobre um número maior de questões. Ajustamento conjugal é um dos fatores que influenciam diretamente a satisfação no relacionamento. Além disso, há questões com menor possibilidade de conciliação por serem essencialmente dicotômicas, como ter ou não filhos, sair ou não do país etc. Nesses casos, um ou outro lado acaba cedendo, ou o relacionamento não avança.

A boa notícia, contudo, é que a maior parte das questões de um casal permite negociação. Não quero dizer com isso que seja fácil. Negociar é uma arte difícil, que exige uma boa dose de treino para ser colocada em prática. Na realidade, a maior dificuldade que eu observo nos casais do consultório é exatamente sair da armadilha do certo x errado. Essa ideia é a principal responsável pela intolerância e pelos sentimentos negativos intensos que observamos numa discussão de casal. E sair desse ciclo vicioso é muito mais difícil do que parece.

Agora, imagine você que a ONU envie um negociador para tentar chegar a um acordo de paz na Faixa de Gaza. Você realmente acha que ele vai chegar lá discutindo qual religião é mais correta ou quem tem mais direito àquele território? Olhando de fora fica fácil entender como essa intervenção seria, muito provavelmente, um fracasso. As partes não concordariam e o acordo seria inviável. Sairiam todos frustrados, irritados. Talvez até se exaltassem e se agredissem. Então imagine que o negociador propõe algo do tipo: para ficar com esse pedaço de terra, de que outro pedaço você estaria disposto a abrir mão? Com uma boa dose de paciência, capaz até de se chegar a algum tipo de negociação...

Se funciona para guerra, pode ser que funcione na sua casa... Assim, ao pensar as questões do seu relacionamento, antes de falar, reflita se a sua abordagem é uma tentativa de de negociação. Para todos os casais que eu atendo, uma das primeiras coisas é: não interessa se é certo ou errado, a questão é chegar a um acordo. Nada de fundamentalismo!

Não podemos esquecer, por último, que em um acordo, há necessariamente perdas. Claro que, para ter uma parte do que queremos, temos que dar ao outro uma parte do que ele quer, em retribuição. O pote de ouro no final do arco-íris, contudo, é ganhar o que todo mundo quer: um relacionamento feliz e em paz.

Dra. Aline Sardinha – Psicóloga Clínica e Coach (CRP:34.146)



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