SEXUALIDADE

21/01/2015
Nheco-nheco

Amorzinho, nheco-nheco, bilu-bilu, florzinha... aquelas coisas.... Quem nunca se flagrou usando linguagem infantil para se referir, junto a um parceiro sexual, a coisas para lá de adultas? A linguagem infantil, ou baby-talk, é um modo automático da nossa expressão verbal, evolutivamente determinado, que entra em cena sempre que o cérebro entende que nosso interlocutor é uma criança ou um bebê. Isso tem como principal função fazer com que a fala do adulto seja mais facilmente processada pelo cérebro do bebê, contribuindo para a comunicação e aquisição da linguagem desse último. Baby-talk inclui ainda outros acessórios da fala, como um tom de voz mais agudo, uma melodia exclamativa e expressões faciais mais facilmente compreendidas.

A questão aqui é, porque dois adultos, em situações sexuais, que pressupõem a ausência de crianças, entram no modo baby? Será que alguém acha que falar fininho e fazer cara de neném são boas estratégia de sedução? Imagino que, deliberadamente, não. Entretanto, o fato é que as pessoas fazem assim e até hoje a espécie não foi extinta. Ou seja, vem funcionando...

O encontro sexual pressupõe tensão. Propor, insinuar e finalmente fazer sexo envolvem um jogo interpessoal complexo, cheio de códigos e ambiguidades. É essa tensão que está na base do frisson sexual, da excitação psicológica. Em termos químicos, é a dopamina atuando, como em outras situações de excitação e expectativa, e que também promovem “barato”, por exemplo, jogos, drogas e esportes radicais.

Entretanto, as vezes a tensão é tamanha que precisamos usar uma válvula de escape para aliviar um pouco o clima. E o baby talk é uma das nossas formas automáticas de introduzir um pouco de humor e leveza quando as coisas estão ficando tensas demais. É improvável, contudo, que o baby talk seja usado em uma primeira abordagem, em um bar, por exemplo. Nesse contexto, outras formas de criar e aliviar tensão, mais adequadas à situação, se alternam. Fazer piada, risinhos histéricos... todas podem ter tal função.

Isso porque a fala infantil, diferente das outras estratégias, pressupõe um nível alto de afeto. Carinho, intimidade e parentalidade tem a ver com outro hormônio, a oxcitocina, um potente antídoto do desejo. Por isso, é muito mais provável que encontremos esse tipo de interação em casais que estão exatamente caminhando na linha tênue entre tensão sexual e momentos de afeto e intimidade. Essa transição entre um relacionamento puramente sexual e o aprofundamento do vínculo afetivo, por si só, já é uma grande fonte de tensão.

Dessa forma, um pouco de baby talk não faz mal a ninguém, se usado dentro do contexto adequado. Por outro lado, é muito importante ficar alerta para não abusar. Afeto, intimidade, comportamentos infantis em alta, combinados com a diminuição da novidade, a redução da ambiguidade e o aumento da previsibilidade em função da convivência, podem contribuir para minar totalmente com a tensão sexual entre o casal. Paulatina e inadvertidamente, o leito conjugal vai se tornando um local propício para dormir de conchinha... apenas! Um pouco de dopamina de vez em quando faz bem à saúde sexual de qualquer casal.

Dra. Aline Sardinha – Psicóloga Clínica e Coach (CRP:34.146)




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