TRABALHO

15/01/2015
Férias

Iniciadas as temporadas de festas de final de ano e férias de verão, uma mesma fala começa a aparecer, das mais variadas formas, nas sessões do consultório e nas rodas de amigos: férias. Se, por um lado, estamos todos cansados e contando os dias regressivamente para sua chegada, por outro, para muitos, essa palavra carrega também uma ameaça velada. Como vou passar tanto tempo longe do trabalho? Como ficarão todas as coisas que precisarão ser resolvidas nesse período? Será que vou mesmo conseguir sair de férias? Será que me ausentar neste momento será bem recebido pela minha equipe e meus superiores? Levo ou não o laptop e o celular da empresa? Quem vai me substituir?

Ao contrário das crianças em idade escolar, para quem as férias representam libertação das obrigações e um período inteiro dedicado à diversão e descanso, para muitos adultos, em especial os que trabalham com alto nível de responsabilidade, tirar férias significa interromper ou deixar de supervisionar um trabalho que não vai parar. O trabalho nunca tira férias! Ou seja, entrar de férias, frequentemente implica em abandonar tarefas que vão continuar sendo (ou precisando ser) realizadas normalmente, a despeito da sua ausência. Nada pode esperar!

No mundo em que vivemos, urgência e produtividade são conceitos-chave nos ambientes de trabalho. Dessa forma, como encaixar a ideia de que o responsável pela tarefa vai se ausentar por vários dias e que seus afazeres ficarão em suspenso até sua volta? Impossível! Tirar um mês de férias é quase uma lenda. Ou pior, atitude de profissional preguiçoso, irresponsável e pouco comprometido.

Na verdade, mesmo aqueles que tiram poucos dias, sentem como se esse período de ausência precisasse ser compensado, de modo a se tornar quase imperceptível. Antes das férias se iniciarem todas as tarefas precisam estar prontas, aquelas relativas ao período, adiantadas e, na volta, o trabalho “atrasado” deve ser colocado em dia imediatamente.

Ideal seria que o indivíduo entrasse de férias e ninguém notasse... Mas aqui temos um novo paradoxo: a missão é tirar férias quase que sigilosamente, sem que ninguém perceba. Não porque sua presença no ambiente de trabalho seja dispensável, mas porque conseguiu “dar um jeito” de se ausentar sem que isso prejudicasse o andamento dos seus afazeres. E, claro, estando disponível para resolver, mesmo que remotamente, qualquer “emergência” que não possa esperar o seu retorno. De preferência, com a mesma agilidade que o faria se tivesse passado os últimos dias sentado em sua mesa e não numa espreguiçadeira na praia.

Imagine que, em função as suas férias, algo importante deixe de ser realizado? Ou pior, que outro colega se mostre capaz e resolver quase tão competentemente quanto você? Precisamos ser insubstituíveis, onipresentes, oniscientes, competentes e, óbvio, incansáveis. Esse é o mito do profissional do século XXI. Férias é para os fracos! Será?

Dra. Aline Sardinha – Psicóloga clínica e Coach (CRP:34.146)




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