TRABALHO

25/04/2015
Realização profissional

Realização profissional

Pense na atividade que você mais gosta de fazer? Pode ser ir à praia, ao barzinho com os amigos, comer brigadeiro, fazer sexo... Agora imagine que seu novo emprego consiste em realizar essa atividade 12 horas por dia, cinco dias por semana, durante vários anos. Quem sabe, até, de vez em quando, tendo que estender a jornada para suas noites e finais de semana. Como seria?

Na idade média, as pessoas trabalhavam basicamente para obter os itens básicos para sua própria sobrevivência e talvez um pouco mais, que poderia ser comercializado, de modo a poder usufruir de coisas produzidas por outros. Com a revolução industrial, muitas pessoas passaram a trabalhar nos centros de produção. Assim, foram surgindo as grandes cidades e, com elas, a demanda por novos serviços e novas profissões. Apenas neste momento foi possível ter como atividade principal trabalhos não necessariamente ligados à produção dos itens de consumo, como ser advogado ou psicólogo, por exemplo. Neste momento, surge a possibilidade de um jovem escolher sua profissão.

Hoje em dia, nos centros urbanos, praticamente todos podem escolher com que vão trabalhar, a despeito da classe social. Vontade e vocação surgem, assim, como elementos importantes dessa escolha. Paralelamente, na medida em que trabalhamos cada vez mais horas e essas tarefas invadem nossa casa e nosso descanso por meio de celulares e computadores, gostar do que se faz passa a ser valorizado. As crianças já pensam no que querem ser quando crescerem. E as possibilidades são inúmeras.

Realização profissional não é mais apenas ter um emprego estável que me permita sobreviver confortavelmente. As pessoas “tem que” amar o que fazem! Realizado mesmo é o profissional que acorda motivado para ir para o seu trabalho, passa muitas e muitas horas lá, feliz, e volta para casa pensando em ideias inovadoras sobre como aprimorar suas atividades. De preferência, com os bolsos cheios de dinheiro. Sendo que há ainda aqueles que amam tanto suas profissões que são capazes de realizá-las por pouco ou nenhum dinheiro, precisando contar com a ajuda de terceiros para sobreviver.

Nessa lógica, é comum receber no consultório, profissionais engajados, bem sucedidos e com uma vida laboral organizada se questionando se estão na profissão certa. “Eu gosto do que eu faço, mas eu não amo, sabe?” é frequentemente ouvido entre aquelas quatro paredes. Será que eu devo abandonar tudo e investir no sonho de ser instrutor de asa delta?

O novo conceito de realização profissional, ao confundir os limites entre trabalho e lazer, acaba provocando, paradoxalmente, sofrimento. Mudanças constante de emprego, busca por novas carreiras, insatisfação, conflitos no ambiente de trabalho e inquietação muitas vezes acabam sendo consequência dessa expectativa irreal. Para os mais jovens, fica ainda a angústia de ter que escolher, precocemente, o caminho certo para alcançar o Santo Graal.

Retomamos, assim, o questionamento do início do texto. Que atividade maravilhosa seria essa que faríamos o dia todo, durante muitos anos, sem enjoar? Sem ter que enfrentar dificuldades e experimentar insatisfação? Isso costuma atender pelo nome de hobby. E mesmo assim, raras pessoas mantém um mesmo e único hobby ao longo de toda uma vida.

Dra. Aline Sardinha – Psicóloga clínica e Coach (CRP/05:34.146)






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