VIDA

08/10/2014
Não saber

Não saber

Será que o meu marido me ama? E se algo de ruim acontecer com os meus filhos? Como será o dia da minha morte? Por que eu estou demorando tanto para engravidar? E se eu não tivesse desistido daquele emprego? Como teria sido se eu tivesse casado com aquele outro? Quantas perguntas como essas, sem resposta existem na sua vida? Coisas que poderiam acontecer mas acabaram não tendo chance, outras que ainda podem ocorrer, mas que nos deixam morrendo de medo... No fundo, muitas são as situações em que simplesmente não temos como saber. O que você faz com as incertezas na sua vida?

A incerteza é o combustível da ansiedade. Isso porque nosso sistema funciona com um mecanismo de segurança que nos impele a, na ausência de certeza que está tudo bem, continuar alertas para a possível ocorrência do perigo e para todas as outras possibilidades de escolha. Muitas são as situações em que precisamos lidar com isso, como quando nos deparamos com problemas sobre os quais temos pouco ou nenhum controle ou mesmo quando pensamos sobre coisas que não podemos controlar simplesmente porque elas já aconteceram ou porque ainda não existem.

A incerteza relacionada a questões que são importantes ou valorizadas por nós pode nos levar a uma série de comportamentos disfuncionais, em uma constante busca por respostas que, provavelmente, nunca virão. A armadilha mais conhecida é a tentativa de controle da situação. Seja fazendo inúmeras previsões e estando preparado para todas as possíveis catástrofes que podem ocorrer, até de fato atuando para assegurar-se de que as coisas funcionarão de um jeito que nos deixe mais tranquilos. Por exemplo, as mães que lidam com a incerteza sobre a segurança dos filhos simplesmente proibindo-os de fazer determinadas atividades ou ligando inúmeras vezes para assegurar que está tudo bem; ou pacientes hipocondríacos que fazem milhares de exames desnecessários para ter certeza de que sua saúde está preservada...até o próximo exame.

Outra estratégia disfuncional é a evitação. Quantas vezes você já achou melhor “nem pensar” sobre determinados assuntos? E o que acontece inexoravelmente quando a gente tenta não pensar sobre algo? Não pensar implica em já estar pensando naquilo. Eu só consigo parar de pensar sobre algo que eu percebo que estou pensando, não é mesmo? Parece maluquice. E é. Pior, podemos ficar nesse ciclo durante horas, meses ou mesmo anos.

Existe ainda os que tem fé. Em Deus, em alguém em que confiamos, no destino ou mesmo em dar três batidinhas na madeira. Em psicologia, chamamos a isso pensamento mágico. Se eu estou com medo de algo que eu não sei como resolver, posso me acalmar com um pensamento ou um comportamento que me dê a impressão de que tudo vai ficar bem. Magicamente.

O principal problema com todas essas estratégias que comumente usamos em situações de incerteza é que elas não nos dão exatamente o que procuramos: certeza. Sempre haverá uma margem de erro, a possibilidade de algo vir a acontecer com os meu filho assim que eu desligar o telefone, ou de os médicos terem errado o laudo do meu exame ou de, mesmo confiando muito que as coisas vão dar certo, elas efetivamente não funcionarem do jeito que eu queria. E aí? Aí as perguntas voltam a perturbar a nossa cabeça. “E se?”, “Será que?”, “Vai que...”. E lá vamos nós novamente tentar controlar as coisas, nos precaver, entregar nas mãos de Deus ou, pelo menos, tentar não pensar....

Como você pode perceber, em função da forma como o nosso cérebro funciona, o ciclo da incerteza não tem fim. Nunca saberemos ao certo. Nossa mente vai viver cheia de perguntas sem resposta que nos deixam ansiosos e preocupados. E qual a solução para isso? Nenhuma. Na verdade, a solução é exatamente aceitar a ausência de solução. E a ansiedade decorrente dela.

E porque isso é melhor? Apenas porque assim temos a chance de nos habituar com o desconforto que certos pensamentos nos geram e de deixar progressivamente de sofrer tanto por eles. Ao nos engajarmos em tentativas frustradas de saber o que nunca saberemos, perpetuamos o ciclo da ansiedade. Na busca de respostas, acabamos sempre colecionando novas perguntas e incertezas. No fundo, qualquer um dos caminhos para lidar com a ansiedade que mencionamos acima são tentativas de controlar mentalmente o que não podemos influenciar na vida real.

Enquanto ficamos reféns das nossas tentativas de certeza mentais, deixamos de vivenciar e aproveitar o que está acontecendo no presente, na vida real. Quanto tempo você tem para perder com isso?

Dra. Aline Sardinha - Psicóloga Clínica e Coach (CRP:34.146)



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COMENTÁRIOS
Olá, excelente texto. Um conceito que ajuda a enriquecer e entender esta discussão é o de Locus de Controle.
Por: Rafael Baracho - Em: 06/05/2015 - 12:04:33
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